23 de abr. de 2013 | By: Fabrício

Rambo - Programado Para Matar (1982)

 

Este foi um dos filmes que sem sombra de dúvida marcou a minha infância. Sempre sonhava ser como o personagem interpretado por Sylvester Stallone, soldado da Guerra do Vietnã, John Rambo. O enredo narra justamente a vida de Rambo (Sylvester Stallone), um veterano da Guerra do Vietnã que é preso injustamente pelo xerife Teasle (Brian Dennehy), mas consegue fugir e promove uma guerra não só contra o policial mas contra toda uma cidade, causando pânico e destruição, que é o que ele sabe fazer de melhor.

Todos conhecemos hippies, movimentos civis e a gigantesca mobilização contra o conflito no Vietnã nesse período. Mas desconhecidas são as feridas não cicatrizadas de familiares e soldados que retornam perplexos. Derrotados em um conflito mal explicado, são tratados como criminosos por uma população que, até então, julgavam estar defendendo. Humilhados, sem referência ou trabalho - e sofrendo de estresse pós traumático - precisam recomeçar a vida sem qualquer perspectiva.  
Esse é o pano de fundo do filme. Rambo é uma espécie de herói trágico. Silencioso e misterioso, é revisitado constantemente pelas lembranças das torturas de quando foi capturado em combate. Mas ele não é qualquer soldado. É o último sobrevivente de um esquadrão de elite que se acostumou com a solidariedade do serviço militar. Treinado para operar tanques, helicópteros e todo um conjunto de armas caras e sofisticadas, não encontra qualquer sentido ao descobrir que lutara por algo que dificilmente conseguirá chamar de casa novamente.    


Para quem acha que o filme não passa de um tiroteio descerebrado, atenção à cena em que o coronel tenta dissuadir Rambo de destruir a urbes. Ao dizer, “acabou”, Rambo responde, em uma explosão verborrágica de todos os traumas e dores que acumulara nos últimos anos. “Acabou para vocês!”, para o coronel, para toda alta patente do exército, para os manifestantes contra o conflito que agora retornam à casa a procura de uma nova causa. Para um soldado não acaba nunca. O que se segue é a descrição de um sujeito absolutamente perturbado, confinado à lembranças traumáticas e entendimentos confusos sobre o novo mundo. A guerra, para ele não foi perdida, apenas não deixaram ele ganhar. E quando retorna, percebe que não tem nada além da memória dos companheiros morrendo em condições horrendas e a hostilidade de uma sociedade que o culpa pela desmoralização da América perante o mundo. Seu país não é o mesmo que havia deixado antes da guerra. Uma vez que aquela sociedade não o valoriza deixando-o a mercê, sem nenhum tipo de assistência e mais, deixando-o viver com seus demônio, referente as lembranças traumáticas que uma guerra pode proporcionar à um ser humano. 

Engana-se quem pensa que filmes como os do personagem Rambo não ensinam, sendo eles carregados de significados de sua época, mensagens majoritariamente políticas. Embora a história do soldado distorça a natureza dos conflitos, ela revela de forma crua a ferida no orgulho estadunidense que o conflito vietnamita causou.   

Serve para refletirmos ainda o quão perturbado um soldado e qualquer ser humano pode ficar mesmo tendo sobrevivido à guerra ou qualquer outro tipo de evento traumático em sua vida. Além de retratar o que acontece com muitos soldados estadunidenses - em detrimento do abandono da sociedade e do Estado para com eles - quando estes retornam de um combate.

Assista um trecho do filme que considero importante entre Rambo com seu coronel:


Para assistir ao filme acesse:
 
18 de abr. de 2013 | By: Fabrício

Maioridade Penal


Nas últimas semanas um dos grandes debates que voltou à tona em nossa sociedade e que ganhou destaque nos vários veículos de comunicação, foi a redução da maioridade penal. Questão esta que volta e meia ressurge quando acontece algum tipo de crime hediondo que envolva menores e que ganha destaque nacional.

O caso mais recente que chocou e comoveu grande parte de nossa sociedade foi a do estudante da Faculdade Cásper Líbero, Victor Hugo Deppman (de 19 anos) que foi morto na noite do dia 09/04/2013 com um tiro na cabeça durante um assalto em frente de seu prédio. Do assassino, não saberemos nem o nome. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe a divulgação. Ele era um menor por mais três dias apenas. Setenta e duas horas depois de matar Deppman, completou 18 anos. Tivesse já feito aniversário, saberíamos quem é ele e poderia ser processado por latrocínio — um crime hediondo. Como era um menor, ficará internado no máximo — isso quer dizer que pode sair antes — três anos. Sob nenhuma hipótese, continuará detido depois dos 21 anos. Saíra da Fundação Casa com a ficha limpa. E em meio a tal conjuntura que se configurou é que se discute novamente a diminuição da maioridade penal.

Ao meu entender a redução da maioridade penal não resultará em nada. Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, não a causa. É encarcerar mais cedo a população pobre jovem, apostando que ela não tem outro destino ou possibilidade. O que quero dizer é que sabemos que o nosso sistema penitenciário não recupera ninguém e isso vale também para a Fundação Casa (instituição que “cuida” de menores infratores no estado de São Paulo). Nosso sistema está falido, em virtude de não ter infraestrutura, dos reclusos viverem em um ambiente sub-humano devido às condições insalubres, com selas superlotadas e para completar, passam os dias na ociosidade. Tudo isso, faz que se crie um ambiente que não recupera e não ressocializa ninguém, formando assim um grande circulo vicioso, propício para o surgimento de rebeliões.

O aspecto que cabe destacar dos efeitos da prisão sobre os criminosos, é que ela da forma que está estruturada degrada por demais a personalidade do homem preso. Quase tudo que auxilia na destruição da dignidade humana, pode ser encontrado na prisão - humilhação, medo, violência, perda de referências pessoais. Sendo assim, sobre diversos aspectos, nosso sistema penitenciário representa a supressão dos direitos humanos. Percebe-se que o Sistema Penitenciário Brasileiro, por descaso dos poderes competentes, não consegue promover de forma precisa sua função de reintegrar o apenado à sociedade. Segundo levantamento feito a pedido da BBC Brasil pelo especialista Roy Wamsley, diretor do anuário online World Prison Brief (WPB), nas últimas duas décadas o ritmo de crescimento da população carcerária brasileira só foi superado pelo do Cambodja. Se a tendência de crescimento recente for mantida, em dois ou três anos a população carcerária brasileira tomará o posto de terceira maior do mundo em números absolutos da Rússia.

Fonte: Open University

Não podemos esquecer que 95% do contingente carcerário, ou seja, a sua esmagadora maioria, é oriunda da classe dos excluídos sociais, pobres, desempregados e analfabetos, que, de certa forma, na maioria das vezes, foram “empurrados” ao crime por não terem tido melhores oportunidades sociais. Há de se lembrar também que o preso que hoje sofre essas penúrias dentro do ambiente prisional será o cidadão que dentro em pouco, estará de volta ao convívio social, junto novamente ao seio dessa própria sociedade. Frente a tal constatação, a lei não é igual para todos. Foucault ao falar sobre o crime e a lei que o determina, diz que:

“… seria hipocrisia ou ingenuidade acreditar que a lei é feita para todo o mundo em nome de todo mundo; que é prudente reconhecer que ela é feita para alguns e se aplica a outros; que em princípio ela obriga a todos os cidadãos, mas se dirige principalmente às classes mais numerosas e menos esclarecidas; que, ao contrário do que acontece com as leis políticas ou civis, sua aplicação não se refere a todos da mesma forma; que, nos tribunais, não é a sociedade inteira que julga um dos seus membros, mas uma categoria social encarregada da ordem sanciona outra fadada à desordem (…)” (FOUCAULT, 1987, p. 208)

O que defendo – como medida imediatista – não é a redução da maioridade penal, mas sim que em casos de crimes hediondos, o “menor” seja julgado como um adulto independente de sua idade. Assim como acontece na Inglaterra e em alguns estados americanos. Entretanto, este tipo de punição é algo quase que inconcebível em nosso país, pois para haver esse tipo de pena, seria preciso alterar nosso Código Penal, nossa Constituição e ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Logo se torna inviável em virtude de nossos legisladores serem omissos quando se trata fazer algum tipo de alteração nessas normas, visto que nosso Código Penal é de 1940.

É sabido que toda e qualquer punição dada ao infrator é considerada uma medida paliativa, pois se nosso sistema prisional e educacional (no caso de instituições para menores) não recupera ninguém, há uma grande probabilidade desse adulto ou menor voltar a cometer outro tipo de delito quando sair. Este é um fator que faz com que muitos se tornem reincidentes; e frente a isso é que não vejo nenhuma perspectiva de melhora ao reduzirmos a maioridade penal. Afinal, não há mais espaço para trancafiarmos tantas pessoas em nossos presídios. "Por mais esforço que o Estado faça, não dá conta de construir mais vagas no mesmo ritmo", admitiu o diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, Augusto Rossini, em entrevista, quando se referia ao grande crescimento da população carcerária em nosso país que cresceu consideravelmente nas últimas décadas.

Mas o que fazer então? A resposta é investir em EDUCAÇÃO, para assim evitarmos que muitos desses menores ingressem para o mundo do crime. Só que ao se investir em educação, seu resultado se dará a longo prazo, algo em torno de dez anos, afirmam alguns dos especialistas mais otimistas. E enquanto esse investimento não é feito, temos que suportar as mazelas presente em nossa sociedade que convive diariamente em um ambiente de medo e pavor, na qual os menores são os protagonistas principais.


REFERÊNCIA:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir - História da Violência nas Prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.
16 de abr. de 2013 | By: Fabrício

A política brasileira


Não aguento mais acompanhar os noticiários de nosso país e me deparar cotidianamente com manchetes que se repetem. Notícias estas que tratam de corrupção, nepotismo e impunidade.

Parece que nós brasileiros nos acostumamos com esse tipo de noticiário tornando-se banal para nós, uma vez que, não há punição para os que a cometem, visto que nossos políticos em sua grande maioria são antiéticos. Aliás, para aqueles que desejam entrar na política esse é um pré-requisito básico, SER ANTIÉTICO, já que a política é feita de interesses, e são esses interesses que fazem com que grande parte de nossos legisladores (seja na esfera federal, estadual ou municipal) hajam de costas para a sociedade que os elegeram. Quer prova mais contundente desses interesses do que a promiscuidade política que há em época de eleição entre os partidos políticos brasileiros na busca por apoio político em troca de promessas de ministérios e/ou no comando de alguma agência reguladora?

Mas e quanto a MORAL? Nossos legisladores possuem? Creio que sim, mas a moral que eles pregam não é em nome de nossa sociedade, mas sim de caráter privado, ou seja, o comportamento moral de grande parte de nossos políticos é oposta ao bem comum. Esta forma de fazer política faz parte de nossa história desde os primórdios de nossa colonização e parece estar tão enraizado que se tornou difícil mudar essa forma de agir.

O âmago de toda essa questão está no fato de haver muita impunidade em nosso país quando se trata de crimes políticos. Se pegarmos as regiões norte e nordeste do Brasil, veremos que há inúmeras oligarquias composta por políticos que controlam municípios e até mesmo que comandam um determinado estado de nossa federação. Como se não bastasse tal fato, é comum vermos políticos acusados pela justiça de corrupção, lavagem de dinheiro e pedofilia sendo eleitos. Até quando vamos tolerar isso? Até quando vamos suportar isso?

A carga tributaria que existe em nosso país é uma das maiores do mundo. Mas o grande problema é que nós, enquanto sociedade, não vemos o retorno dessa carga tributária extremamente elevada, pois, a saúde, a segurança e a educação continuam em estado de abandono, sem infraestrutura e funcionários ganhando péssimos salários.

Muitos dirão: “É melhor viver na ignorância e ser feliz, do que ser um cidadão consciente e frustrado”. Eu discordo. Enquanto não pararmos de olhar para o próprio umbigo (visto que nossa sociedade capitalista nos tornou cada vez mais individualistas), os que estão à frente no poder continuarão a perpetuar essa política fatídica.

Não dá mais para suportar tanta injustiça e tanta política indecorosa na vida dos brasileiros. Se não nos mobilizarmos, temo que daqui a cem ou duzentos anos, textos como este continuarão a ser produzidos, como uma voz solitária em uma sociedade conturbada e impregnada de legisladores inescrupulosos.

13 de abr. de 2013 | By: Fabrício

Uma História de Amor e Fúria (2013)


"O passado é o que está acontecendo agora". Essa frase, na voz de Selton Mello no filme Uma História de Amor e Fúria é emblemática nesta década de acaloradas discussões sobre novas estruturas sociais, os rumos conturbados da economia e as mudanças climáticas.

A animação roteirizada e dirigida por Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças) relembra que, ao longo da história do Brasil, muitos erros se repetiram e passaram quase que invariavelmente pelos mesmos motivos: luta de classes, opressão, disputa inconsequente por poderio econômico e displicência diante do uso de recursos naturais. No filme, esse fio condutor demasiadamente humano interliga o período da colonização, a origem do cangaço do nordeste brasileiro, os Anos de Chumbo e o futuro, mais precisamente o ano de 2096. Parece haver uma lacuna proposital aí: a década de 90 e os primeiros anos 2000 ficaram de fora do enredo justamente para que o expectador se coloque por um momento no lugar do herói furioso e apaixonado do longa-metragem e, com isso, pense um pouco sobre a atualidade e seu próprio papel como cidadão. Isso faz mais sentido ainda se observarmos que, em cada fase do filme, o protagonista imortal se torna um revolucionário e assume a função de defensor de minorias. Ele atua como agente da mudança, exceto no período do final do século XXI, momento em que desiste de lutar e se torna indiferente às mazelas daquele período. Os problemas do futuro pressagiados pela animação parecem um tanto prováveis: milícias particulares que detém o monopólio da segurança, a falta de água como o mote de uma guerra civil, apatia política e alicerces sociais baseados em consumismo. Qualquer semelhança com fatos reais do ano de 2013 não será mera coincidência graças à participação de antropólogos e historiadores consultados por Bolognesi para o desenvolvimento da obra. 


Revolução Sustentável – A reflexão suscitada pela saga, que atravessa os tempos por meio de fatos extremos sobre escravidão, totalitarismo e violência urbana, tenta nos empurrar ao desejo de fazer alguma coisa para evitar a escassez de recursos naturais, para promover a justiça social e para construir um sistema econômico equilibrado. 

Hoje em dia não é difícil imaginar que a sustentabilidade se apresenta como a revolução contemporânea necessária, que pode e precisa ser entendida muito além de uma bandeira verde tremulada como a solução de todos os males atuais.

A complexidade da problemática atual exige que ações sustentáveis sejam realmente abrangentes e alcancem toda a magnitude do seu conceito. Hoje, ao invés de pegar em armas, a sustentabilidade pode ser a ferramenta da mudança. Educação, engajamento e conhecimento compartilhado são fundamentais para esse novo tipo de luta. 

Não será um único herói ou ideia a mudar a história, mas sim uma série de mudanças em cadeia em todas as camadas da sociedade. A máxima do “cada um fazer a sua parte” é determinante na soma de esforços para que isso aconteça – do indivíduo às instituições ou mesmo do poder público ao setor privado. O ponto chave é saber observar o que realmente é ou o que poderia ser feito hoje para que o desenvolvimento sustentável seja uma realidade que assegure um futuro equilibrado nos fatores econômicos e socioambientais. Mais do que observar, é preciso agir, seja pelo amor ao próximo ou mesmo pela fúria de não aceitar passivamente a imposição de uma realidade supostamente imutável. O convite de Luiz Bolognesi com seu filme – que durou cerca de seis anos e 25 mil desenhos para ser feito – mostra que podemos usar a história de uma forma menos contemplativa ou, ao menos, viver o presente sem indiferença pelo todo. Se o futuro é o que está acontecendo hoje, já temos uma ideia do que virá nas próximas décadas se não nos tornarmos protagonistas das mudanças imortais que tanto desejamos. 

Veja o trailer:

11 de abr. de 2013 | By: Fabrício

Semana Acadêmica de História - UFPR



Os estudantes do curso de História da Universidade Federal do Paraná estão organizando sua semana acadêmica, a ocorrer entre os dias 17 e 21 de Junho de 2013.

Neste ano a semana terá por título “África e Brasil, um mar de histórias” e buscará abordar as relações entre o continente africano e o Brasil; as possibilidades de estudo da África a partir do nosso país; os pontos de encontro e afastamento entre alguns países africanos e o Brasil, no passado, no presente e, quem sabe, no futuro.

O título tem por signo central o mar – o que nos une e nos separa, nos aproxima e nos afasta, o caminho entre o Brasil e a África e também o obstáculo. Além disso, representa a infinidade de histórias que há por serem contadas e escritas entre o continente do lado de lá do Atlântico e o país do lado de cá.
3 de abr. de 2013 | By: Fabrício

Sobre a Revolução


Escrito entre 1959 e 1962, sob o impacto da onda de revoluções e movimentos de libertação nacional que marcou as primeiras décadas da Guerra Fria, este livro assinala uma reflexão na obra de Hannah Arendt. A autora de Origens do Totalitarismo, celebrizada pela dissecação do mal absoluto perpetrado pelas ditaduras de Hitler e Stálin, volta-se para o fenômeno político de maior alcance e influência dos últimos séculos: a revolução.

Nesta incursão magistral pela filosofia política, Arendt analisa os fundamentos históricos e filosóficos dos movimentos revolucionários que ainda hoje, malgrado o colapso de todas as utopias, não cessam de modificar a configuração do poder mundial. O livro descreve com lucidez e erudição as diferentes modalidades de conquista e transformação do poder político pela via revolucionária tomados como modelo incontornável pelas revoluções posteriores, os eventos dramáticos do século XVIII fornecem a Arendt as linhas mestras de sua investigação, centrada na ideia de liberdade.

A Onda (2008)



Eu começo com os jovens. Nós os mais velhos estamos desgastados, mas meus jovens magníficos! Existem melhores que esses em qualquer lugar do mundo? Olhe para todos esses homens e garotos! Que material! Juntos, nós podemos fazer um novo mundo!
Adolf Hitler, 1933

No dia 30 de abril de 1945, quando tropas soviéticas estavam a poucos quarteirões do bunker onde havia se escondido, Adolf Hitler (1889-1945), chefe (führer) do regime nazista, cometeu suicídio disparando uma bala na sua têmpora direita. Imediatamente o mundo pôs-se estupefato, perguntando-se como seria possível um país de mais de 65 milhões de pessoas haver sustentado um movimento tão destrutivo quanto o nacional-socialismo. Conforme novas informações chegavam às agências internacionais de notícias acerca do número de vítimas dos campos de concentração, a intelectualidade e as elites políticas de diversos países tornavam-se progressivamente mais obcecadas em explicar aquele que seria o enigma do século XX: o que levaria um grupo de pessoas, em sua maioria racionais, a apoiar um líder autocrático, cuja ordem mais vultosa fora a de exterminar mais de 6 milhões de vidas humanas em câmaras de gás? Muitos, dentre os quais escritores como Albert Camus e filósofos como Hanna Arendt, se dispuseram a respondê-lo, apresentando seus argumentos na forma de tratados, estudos, romances e, obviamente, filmes.


Essa é a tônica que o filme A Onda nos apresenta. Em uma escola na Alemanha, alunos têm de escolher entre duas disciplinas eletivas, uma sobre anarquia e a outra sobre autocracia. O professor Rainer Wenger é colocado para dar aulas sobre autocracia, mesmo sendo contra sua vontade. Após alguns minutos da primeira aula, ele decide, para exemplificar melhor aos alunos, formar um governo fascista dentro da sala de aula. Eles dão o nome de "A Onda" ao movimento, e escolhem um uniforme e até mesmo uma saudação. Só que o professor acaba perdendo o controle da situação, e os alunos começam a propagar "A Onda" pela cidade, tornando o projeto da escola um movimento real. Quando as coisas começam a ficar sérias e fanáticas demais, Wenger tenta acabar com "A Onda", mas aí já é tarde demais. Portanto, o filme toca em uma questão para refletirmos: a de que governos autocráticos como o nazismo e o fascismo, talvez estejam mais próximo de nós do que pensamos, e que eles podem ressurgir a qualquer momento.  

A esse respeito, podemos regressar a Albert Camus. Em 1947, o autor publicou um de seus maiores romances A Peste, cuja advertência aproxima a obra do filme alemão. Na trama, a pequena cidade de Oran, na Argélia, é tomada por uma epidemia de peste bubônica depois de ser invadida por ratos. A trama apresenta ao leitor uma analogia muito clara entre a invasão nazista da França, e a subsequente disputa entre a Resistência e os colaboracionistas, opondo os que combatem a doença àqueles que lucram com ela. Mesmo sustentando um tom mais bélico do que político, em sua conclusão o narrador da obra menciona a comemoração geral após a notícia de que a epidemia cessara, ecoando aquela feita pela população de Paris quando da Libertação. Em meio à felicidade de seus concidadãos, o protagonista da obra, o médico Rieux, manteve-se em uma posição pessimista, pois sabia que, tal qual o fascismo, “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”. É o que acontece com os governos autocráticos (fascismo e nazismo). Quando pensamos que trata-se de um sistema político que ficou no passado, acamos surpreendidos quando nos deparamos com notícias de que jovens em nosso mundo contemporâneo, são seguidores de tais regimes e que veneram líderes como Mussolini e Hitler. Logo o que nos deixa encomodados é que sistemas como estes apesar de pensarmos estar adormecido eles podem voltar a qualquer momento, assim como o bacilo da peste do livro de Albert Camus.

O filme é baseado no romance "The Wave" de Todd Strasser (sob o pseudônimo de Morton Rhue), uma história de ficção, mas que foi baseada em fatos reais. Em abril de 1967, em uma escola de ensino médio em Palo Alto, na Califórnia, o professor Ron Jones fez o experimento mostrado no longa com os seus alunos, e o chamou de "Third Wave".

Ótima opção para se trabalhar o conceito de governos autocráticos e de como eles se originam.
 



Para assistir ao filme acesse: