Surgiu da necessidade de divulgar informações e oferecer materiais para amigos e alunos terem acesso a um conteúdo diversificado e mais abrangente sobre História. Além de servir como ferramenta, na qual posso expor minhas opiniões.
"O problema das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las e com eles é impossível governar."
Joaquim Nabuco, diplomata brasileiro (1849-1910).
CHARGE DO MÊS
A Operação Condor (Plano Condor) é o nome do conhecido plano de coordenação de operações entre as cúpulas dos governos ditatoriais do Cone Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai), juntamente com a CIA (EUA), ocorrida nas décadas de 1970 e 1980. Esta coordenação se traduziu na perseguição, vigilância, prisão, interrogatórios (com tortura física e psicológica), deportação para países e desaparecimento e morte de pessoas consideradas "subversivas" e contrárias ao pensamento político e ideológico compatível com os governos militares destes países. O Plano Condor se constituiu ainda numa organização internacional clandestina para a prática do terrorismo de Estado, que pôs em prática o desaparecimento e assassinato de dezenas de milhares de opositores dessas ditaduras, a maioria pertencente a movimentos políticos de esquerda.
Tendo Sócrates como personagem central, essa história nos mostra o quanto é necessário tomarmos extremo cuidado com aquilo que falamos das outras pessoas.
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Isso me fez lembrar de uma passagem bíblica:
"A língua
também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos
membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada
pelo inferno." (Tiago 3.6)
Madrugada do dia 22 de junho de 1941. Começa a Operação Barbarossa, a invasão alemã à antiga União Soviética. Nos próximos dias os soldados alemães empreenderão a blitzkrieg, encontrando fortíssima resistência do exércitovermelho apenas em Leningrado, Stalingrado e Moscou.
Não é que a resistência dos soviéticos no início da invasão alemã, às bordas da fronteira soviética, não tenha existido. Ela existiu! E a cidade de Kiev, na Ucrânia, foi um dos focos desta resistência. Milhares de civis engrossaram o exército e lutaram diretamente contra os alemães. Não ajudou muito, muitos soldados e civis morreram frente à tática de “guerra-relâmpago” imposta pelos alemães, mas os que sobreviveram às batalhas iniciais continuaram vivendo suas vidas. Ou tentaram vive-las da melhor maneira possível nas cidades ocupadas.
Josef Kordif, dono de uma fábrica de pão, vai reunir trabalhadores e outras pessoas que inicialmente lutaram contra os alemães e livrá-las das perseguições diretas da Gestapo. Nesta fábrica trabalhavam produzindo pão para os alemães em troca de um pouco de paz. Qualquer semelhança de Kordif com Oskar Schindler não é mera coincidência.
Entre os trabalhadores, Kordif identificou – no meio daquela multidão de pessoas sem casa que vagavam pelas ruas de Kiev após os combates – e empregou os jogadores do Dínamo, clube pelo qual ele torcia, e que era considerado por muitos o melhor time de futebol da Europa pré-guerra.
Kordif não só empregou como também incentivou os jogadores a manter o time. Durante a noite eles trabalhariam na fábrica, e jogariam futebol durante o dia. E para manter a integridade dos jogadores o time foi renomeado FC Start, já que a agremiação Dínamo estava proibida pelos alemães de manter qualquer atividade esportiva ou cultural.
Os alemães tentavam de todas as formas manter a normalidade em Kiev, apesar da proximidade dos combates. Sabendo que o padeiro tinha montado um time de futebol, os alemães decidiram deixar que algumas partidas fossem realizadas na cidade. O FC Start realizou suas primeiras partidas contra times formados por soldados alemães, húngaros e romenos.
E não perdia. Pelo contrário, só aplicava goleadas!
Só que as vitórias do Start começaram a perturbar os alemães, afinal de contas, todo provável símbolo de resistência – e o time formado por ucranianos era até certo ponto uma forma de resistência – deveria ser analisado e, quando considerado nocivo aos objetivos alemães, exterminado.
Os alemães então trouxeram da Hungria um time chamado MSG, para derrotar os ucranianos, mas não adiantou muito. Os jogadores-padeiros, mesmo após virar a noite trabalhando na fábrica, venceram os húngaros por 5 a 1. E na revanche, o placar de 3 a 2 para o Start mostrava definitivamente que os alemães deveriam conter aquele símbolo de resistência. Pelo menos eles pensavam desta forma.
FC Start X Flakelf, “o time da Luftwaffe”
Segundo Andy Dougan, no livro “Futebol e guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas”, o time convocado pelos oficiais alemães que estavam em Kiev foi o Flakelf, considerado na época um time de respeito, formado apenas por militares da Luftwaffe, a força aérea alemã. Inclusive este time servia de instrumento da propaganda nazista e suas glórias serviam de exemplo para justificar a “superioridade da raça ariana” – as aspas estão aí de propósito.
Não adiantou trazer de longe um time da “raça superior”. No dia 6 de agosto de 1942 o FC Start, que nesta altura do campeonato – perdoem, mas o trocadilho é inevitável – já desfrutava do respeito e da admiração do povo de Kiev, tratou de massacrar o Flakelf por vergonhosos 5 a 1. Depois desta derrota os alemães descobriram, enfim, que os inocentes padeiros que envergavam a camisa do FC Start na verdade eram os antigos jogadores do Dínamo de Kiev.
A ordem para matar todos os jogadores veio depressa de Berlim. Mas os oficiais sabiam que apenas matá-los não faria efeito. Pior que isto, criaria mártires desnecessários, além de deixar na população a imagem de jogadores vencedores que lutaram contra o nazismo. Decidiram então marcar uma revanche para o dia 9 de agosto.
O ambiente em Kiev era pesadíssimo, com provocações dos dois lados. Os soldados alemães estavam envergonhados e a população exultante com o feito de seus heróis. O estádio Zenit estava lotado para a partida – abaixo, o cartaz fazendo “propaganda” da revanche -, e os jogadores do FC Start receberam antes do jogo a visita de um oficial alemão que ordenou que na hora em que o árbitro entrasse em campo – nota: o árbitro era alemão -, ele deveria ser recebido por todos os jogadores com a saudação nazista, mãos direitas estendidas à frente e o grito “Heil Hitler”.
Na hora os jogadores do Flakelf fizeram a saudação, mas os jogadores do FC Start colocaram suas mãos direitas no peito e gritaram “Fizculthura!”, um grito soviético comum aos atletas daquela época.
Os alemães até saíram na frente, mas o primeiro tempo terminou 2 a 1 para os ucranianos. No intervalo eles sofreram novas ameaças dos oficiais da SS, até pensaram em desistir da partida, mas no fim do intervalo resolveram voltar a campo. E apesar de todas as jogadas violentas dos alemães que eram ignoradas pela arbitragem, foi um massacre! 5 a 3 para os ucranianos, com direito a um lance humilhante do atacante Klimenko: ele recebeu a bola de frente para o gol, driblou o goleiro e, com a bola em cima da linha, virou-se e chutou-a para o meio do campo, negando o gol, mas humilhando completamente os alemães.
O público no estádio “veio abaixo”!
Os alemães agiram, aparentemente, como bons perdedores. O FC Start ainda jogou mais uma partida contra uma outra equipe – e também venceu este jogo – mas dias depois os soldados alemães invadiram a fábrica e prenderam quase todos os jogadores-padeiros. Goncharenko e Sviridovsky foram os dois únicos que conseguiram escapar, pois não estavam na fábrica no momento da invasão, e permaneceram escondidos até a saída dos alemães em 1943.
O primeiro a morrer foi Kordif, que dava abrigo e emprego para os jogadores. Todos foram mandados para o campo de concentração de Siretz. Ao chegarem lá, os alemães mataram Kuzmenko, Klimenko e o goleiro Trusevich. Os outros jogadores sofreram torturas até a morte.
Time do Dínamo / FC Start
Até hoje estes atletas são lembrados pelo Dínamo de Kiev. Na frente de seu estádio existe um monumento erguido em 1971 em homenagem aos atletas que morreram defendendo, antes de tudo, a liberdade e o esporte. No monumento está gravada a frase:
“Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista.”
O exemplo dos jogadores do Dínamo certamente ajudou a inflamar a resistência aos nazistas. No dia 6 de novembro de 1943 Kiev foi retomada pelos soviéticos e a história do jogo foi espalhada entre as fileiras russas, tomando ares de lenda com o passar das semanas.
Dizem inclusive que os jogadores do Dínamo, quando casam, vão ao monumento depositar flores em homenagem à memória dos jogadores mortos. E as pessoas que até hoje tem os ingressos daquela partida em 1942 tem assento cativo no estádio.
Com relação à “lenda”, costuma-se aumentar ou diminuir uma passagem da história de acordo com o lado que conta a mesma. A verdade é que o Dínamo era sim um timaço na época e não podemos negar seu exemplo de heroísmo. Não sabemos ao certo se os placares dos jogos foram exatamente aqueles, mas a “lenda” permanece viva.
Referência:
DOUGAN, Andy. Futebol & guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2004.
Neste dia 05 de outubro de 2013,
quando a Constituição da República Federativa do Brasil completa 25 anos,
trazemos aos nossos leitores o interessantíssimo documentário da TV Senado
sobre a construção daquela que ficou conhecida como a "Constituição Cidadã".
Convidamos nossos leitores a assistirem o filme inteiro, pois o mesmo, apesar
de ser do ano de 2009, nos leva a reflexões necessárias sobre as mudanças
sociais, políticas e econômicas que aconteceram no Brasil nesses últimos 25
anos.
"Vamos à Marte! Com uma astronauta, dois gatos e um missionário."
Assim, diz o recorte de jornal que dá conta do ambicioso programa espacial zambiano, nos anos 60.
Na década de 1960 houve um projeto de converter a República de Zâmbia na máxima potência espacial, à frente dos Estados Unidos e da União Soviética. Para isso foi criado um improvisado centro de treinamento de astronautas, com um ambicioso - segundo o seu diretor Edward Makuka Nkoloso - programa espacial.
Durante a celebração de independência de Zâmbia, um homem abordou o repórter da revista Times que estava cobrindo as comemorações.
O autoproclamado diretor da Agência Espacial Zambiana, Edward Makuka Nkoloso mostra ao jornalista o seu projeto de enviar 12 homens, uma garota de 17 anos e 2 gatos à Marte.
Edward Makuka, professor de ciências de uma escola primária conta ao surpreso repórter estadunidense, com queria enviar um foguete de alumínio com um sistema denominado "Mukwa", baseado em um sistema de catapulta.
Em plena corrida espacial dentro do contexto da Guerra Fria entre os Estados Unidos e da União Soviética o fundador da Z.N.A.S.S.R.P. (Zambia National Academy os Science, Space Research and Philosophy) queria ser o primeiro a chegar não só na Lua, mas sim, ir além e conquistar Marte.
Solicitou apoio econômico ao governo de Zâmbia, no qual, lhe foi negado. recorre então à UNESCO e escreve uma carta que é publicada em um jornal, onde pede 7 milhões de libras zambianas.
Durante o programa espacial os sofridos astronautas se estabeleceram em uma base "secreta" próximo de Lusaka, a capital zambiana, equipados somente com um capacete do exército britânico.
Se revesavam para serem empurrados ribanceira abaixo dentro de tonéis de óleo. Segundo Nkoloso, com esse duríssimo treinamento, se conseguia ter a sensação de falta de gravidade das viagens espaciais. Além disso, durante um tempo Nkoloso acreditou ver com seu telescópio do seu centro espacial, que Marte estava povoada por nativos primitivos. Por isso acrescentou missionários à equipe de astronautas africanos, com a ordem de não forçar os marcianos a se converterem ao cristianismo.
Apesar do financiamento por parte da UNESCO para seu programa espacial nunca ter chegado, isso não desanimou Nkoloso, que solicitou ainda ao recente governo de seu país (recém independente, já que antes era colônia britânica), a detenção de espiões russos e estadunidenses, por pretenderem roubar os seus "segredos espaciais".
Ao fim, os seus planos fracassaram, já que a jovem astronauta Matha Mwambwa, ficou grávida e foi resgatada por seus pais. O resto da equipe espacial também abandonou o projeto. Anos depois Nkoloso se candidatou para prefeito de Lusaka mas não foi eleito. Ele queria converter a cidade em uma nova Paris ou Nova York .
Apesar de tudo, Edward Makuka Nkoloso nunca abandonou o seu sonho de conquistar o espaço.
Neste arquivo em vídeo, é mostrada a "base secreta'' do programa espacial de Zâmbia e os astronautas sendo submetidos a um rigoroso treinamento:
Um dos acontecimentos mais chocantes revelados ao mundo ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi o genocídio cometido pelos nazistas contra judeus, negros, deficientes, ciganos, homossexuais e demais minorias consideradas "inferiores". O extermínio dos judeus, conhecido popularmente como holocausto e chamado de shoah, em hebraico, representou o ápice da intolerância, do preconceito e do racismo.
Antes mesmo da ascensão do Partido Nazista ao poder, já havia grande preconceito contra os judeus.
Mesmo durante a República de Weimar, salas de aula e livrarias estavam repletas de libelos, slogans e símbolos antissemitas. Entre 1918 e 1924, ataques isolados a grupos judeus foram registrados nos relatórios policiais. Em 1920, dois terços dos estudantes presentes na assembleia estudantil da Universidade Técnica de Hannover votaram a favor da exclusão dos estudantes de (origem) judaica da União dos Estudantes Alemães.
Em meio à crise das democracias, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães conquistava adeptos bradando inflamados discursos contra o "perigo" judaico, prometendo estabilidade da vida social alemã e restauração da Alemanha como grande potência mundial. Nessa época, o Grupo de Munique da União Central de Cidadãos Alemães do Credo Judaico se pronunciou contra o movimento, que os culpava de tudo: dos males do capitalismo, da guerra, dos sofrimentos, da revolução etc. Num brado consciente de revolta, a comunidade judaica alemã deixou seus protestos registrados em um pôster: "Recusamo-nos a ser bodes expiatórios para todas as maldades do mundo". No entanto, suas vozes foram abafadas pelos brados dos nazistas uniformizados que, no final dos anos de 1920, desfilavam pelas ruas de Berlim numa verdadeira demonstração de força.
CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Racismo Nazista: A era nazi e o antissemitismo. In: Jaime Pinsky; Carla Bassanezi Pinsky. (Orgs). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 104-5.
Ao assumirem o poder em 1933, os nazistas encontraram uma situação propícia para a disseminação do antissemitismo. Assim, a segregação de judeus e outras minorias se tornou uma política de Estado. Em 1935, as Leis de Nuremberg definiram a "pureza racial" dos alemães utilizando como critério o exame da ascendência genealógica dos indivíduos. Inicialmente os judeus foram segregados em áreas específicas, os guetos, tiveram grande parte de seus bens confiscados e foram obrigados a usar uma identificação, a estrela de Davi, para que fossem facilmente distinguidos dos alemães.
Com o início da guerra, em 1939, os judeus passaram a ser enviados para os campos de concentração e extermínio, onde aqueles que não tinham condições para o trabalho eram executados. Por volta do final de 1942, quando os alemães começaram a ser derrotados, delineou-se mais claramente uma política nazista de extermínio massivo dos judeus, quando milhares deles, de toda a Europa, foram mortos em câmaras de gás. Ao final da guerra, o número de judeus mortos foi estipulado em cerca de seis milhões.
No campo de concentração, os prisioneiros passavam por uma triagem e, depois, eram despidos e tinham os cabelos raspados. Nada de valor poderia ficar com os prisioneiros, até mesmo as próteses e equipamentos mecânicos usados pelos deficientes físicos eram confiscados. Os homens mais fortes eram mandados para campos de trabalho forçado, enquanto crianças, mulheres, idosos e doentes eram executados.
Os prisioneiros também eram submetidos a experiências médicas "científicas", servindo como cobaias humanas. Nessas experiências, eram obrigados a ingerir substâncias tóxicas e soluções contaminadas com bactérias; passavam por transplantes de órgãos; eram expostos a altas e baixas temperaturas com o objetivo de testar sua resistência; além de sofrer esterilizações, amputações e outras atrocidades.
Os campos de trabalho forçado e os campos de extermínio eram interligados por estradas de ferro. Nas proximidades dos campos, eram instaladas indústrias para aproveitar a mão de obra dos prisioneiros, que eram obrigados a trabalhar até a exaustão, sob sol ou frio intenso. Mal alimentados e doentes, tinham que suportar maus-tratos e humilhações, além de testemunhar o fuzilamento de colegas, entre outras atrocidades. As mulheres muitas vezes sofriam violência sexual antes de serem executadas.
No entanto, nem todos os alemães compactuavam com a política do Estado nazista. Embora grande parte da nação alemã aprovasse o governo nazista e a perseguição aos judeus, tendo Hitler como um verdadeiro guia e herói, a maioria desconhecia o que se passava nos campos de concentração e extermínio. Quando o regime caiu e essas práticas foram reveladas ao mundo, o povo alemão sofreu um grande trauma decorrente do sentimento de culpa.
O relato de um sobrevivente
Veja, no texto a seguir, o relato do judeu polonês Solomon Radasky, um sobrevivente do genocídio nazista que pôde reconstruir sua vida, mudando-se para os Estados Unidos em 1950, onde morreu aos 92 anos de idade.
Nasci em Varsóvia, na Polônia. Dos 78 membros de minha família, só eu sobrevivi. Meus pais e meus cinco irmãos foram mortos. minha mãe e minha irmã mais velha morreram no gueto de Varsóvia, em janeiro de 1941, quando disseram aos guardas alemães não possuírem nem peles nem joias, conforme eles haviam solicitado. [...]
Eu trabalhava em uma loja que fazia casacos de lã para o exército alemão. Depois do levante judeu no gueto de Varsóvia, em 19 de abril de 1943, fui enviado ao campo de concentração de Majdanek, perto de Lublin. Ao chegar lá, tivemos de entregar nossas roupas e nos deram camisas e calças listradas e sapatos de madeira. [...]
Quando nos chamavam para o pátio, íamos com nossos sapatos de madeira. Mas, depois que atravessávamos o portão, tínhamos que tirá-los e seguir descalços. Havia pedrinhas no caminho que cortavam nossos pés. Trabalhávamos limpando terrenos. Depois de alguns dias, muitos não aguentavam e caíam na estrada. Se não se levantassem, eram assassinados a tiros ali mesmo. nós tínhamos que carregar os corpos de volta. Se mil tinham saído para trabalhar, mil tinham que voltar.
Solomon Radasky. Fui o único da minha família a sobreviver. Almanaque Abril: II Guerra Mundial: 60 anos. São Paulo: Abril, v. 2, 2005. p. 44. Edição especial: O mundo sob Hitler.
O Revisionismo
Logo após a condenação dos chefes nazistas, surgiram várias versões sobre o holocausto que, se não negavam, pelo menos procuravam reduzir a amplitude do crime cometido contra os judeus. Os autores dessas versões são chamados de revisionistas e, em alguns casos, de negacionistas. Eles costumam ser acusados, principalmente pela comunidade judaica, de serem antissemitas e simpatizantes do neonazismo. Atualmente, em alguns países, é crime negar ou colocar a realidade histórica do holocausto em dúvida. Na Alemanha, a pena é de cinco anos de prisão, enquanto na Áustria a pena pode chegar a vinte anos. Assim, criou-se um polêmica que está longe de ser resolvida: de uma lado, os revisionistas pedem liberdade de expressão; do outro, agrupam-se os que defendem a criminalização do revisionismo sobre o holocausto como forma de evitar o ressurgimento dos ideais neonazistas.
Na Europa, em países como Alemanha e Áustria, o ressurgimento de admiradores de Hitler, conhecidos como neonazistas, vem assustando a comunidade judaica internacional.
A Redenção de Cam é uma pintura a óleo sobre tela realizada pelo pintor espanhol Modesto Brocos em 1895.
A obra aborda as teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do "embranquecimento" gradual das gerações de uma mesma família por meio da miscigenação. A obra encontra-se conservada no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
O título é uma referência ao episódio bíblico da maldição lançada por Noé sobre seu filho, Cam, e todos os seus descendentes, conforme relatado no livro do Gênesis. Punindo Cam por zombar de sua nudez e embriaguez, Noé profetizou que o mesmo seria "o último dos escravos de seus irmãos". Os descendentes de Cam seriam os povos de pele escura de algumas regiões da África, além das tribos que habitavam a Palestina antes dos hebreus, serviu por muito como argumento de ideólogos e mercadores para validar, durante o período colonial e ao longo do império, o tráfico de escravos africanos para o Brasil. O pecado de Cam seria, assim, o evento fundador de uma situação imutável e a justa punição divina de todo um povo.
Na obra de Modesto Brocos, em frente a uma pobre habitação, três gerações de uma mesma família são retratadas. A avó, negra, a mãe, mulata, e a criança, fenotipicamente branca. A matriarca, com semblante emocionado, ergue as mãos aos céus, em gesto de agradecimento pela "redenção": o nascimento do neto branco, que será poupado das agruras e das memórias do passado escravocrata.